2008/09/29

Ainda assim



Passei a fita do nosso filme na cabeça,
algumas partes em câmera lenta, para entender o âmago de nós.
Imaginei por momentos, que se estivesses a chorar,
eu teria uma atitude diferente,
como se por acaso, as minhas atitudes dependessem dos teus sentimentos.
Isso era apenas antes,
quando de repente eu me aproximei mais perto e tu também.
E nós, criaturas solitárias,
estivemos perto demais de nos tornarmos um só.
Como se a física permitisse que duas pessoas
pudessem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo,
sem uma iminente colisão no sistema.

E foi o que aconteceu.
Ao colidir atirámo-nos um ao outro para fora do círculo.
para longe demais,
distantes.

Escrito por StarDust em 23:17:54 | Link permanente | Comments (2) |

Nuvens.



Embora em casa, as nuvens entraram e pairam-me na cabeça,
conforme te deixei, mesmo ao lado dos produtos essenciais,
etiquetei-te com uma qualquer caneta,
que ao que parece de má qualidade, pois dificil é agora compreender,
aquilo que escrevi.
E se a tua voz ao telefone me puder manipular,
nas conjecturas mais falaciosas que possas usar,
no timbre mais encantador. Eu não vou sair de casa.
Porque Domingos com chuva, são memórias de pessoas,
que sentadas no chão do quarto, esperam
pelo mundo mudar, sem saberem, impacientes. Que o mundo não muda nada.
E mesmo na imprudência dos deleitos á janela,
que arrastam a imagem suja do subúrbio mal lavado, encontro pouco tempo,
para ter tempo para pensar em ti.
E mesmo assim, esse tempo ainda me sobra, porque já te disse.
Eu estou em casa e tenho nuvens a pairar na cabeça.
Tenho-as e não saio de casa.
E se ao menos, entendesse quais os motivos de tamanha desmotivação,
paralela a todas as coisas boas presentes, talvez te pudesse dizer
que as pessoas para amarem
precisam de se amar a si próprias,
com núvens, ou sem elas...

Escrito por StarDust em 01:41:07 | Link permanente | Comments (0) |

2008/09/26

Egoísmo


Tão egoísta que guardava as palavras só para mim. Todas.
Até me aperceber, com o tempo,
que só as pessoas sozinhas é que escrevem, o que seja.
Para ler e reler e sentir que se está completo.

Tão egoísta a incapacidade de partilhar com alguém.
E ter um brilho interior não partilhável.
Agora sou só egoísta.
Porque as palavras só vêm quando me sinto só.

Escrito por StarDust em 23:29:19 | Link permanente | Comments (1) |

2008/09/24

Rumos


E ás vezes, de repente, deixo de me ouvir.
Deixo-me parar um instante, para perceber.
Ás vezes, olho para a palma das minhas mãos e pergunto-me,
se a culpa da melancolia é minha ou das teclas do piano?

E desdobro-me nos infinitos significados que tento dar a uma vida,
que o silêncio das minhas palavras
se abstrai de todos os sons que arrepiam a pele.
E vibram, e trazem de volta.

E ás vezes, de repente, deixo-me ser Eu.
Deixo-me por instantes, desejar aquilo que tinha destinado no início.
É só que a vida dá voltas.

E outras vezes, de repente, apenos fico estático.
E quase de repente estou ali.
Estou lá.
Eu consigo estar lá, naquele sítio.
Lá mesmo.
Onde eu sei.
Escrito por StarDust em 01:33:28 | Link permanente | Comments (0) |

2008/09/20

Nós, finalmente

Enquanto te vejo adormecer,
na almofada manchada da nossa ternura,
eu pergunto-me porque é que ninguém me contou, isto é aquilo tudo,
que nos sonhos aparecem de forma desconexa,
desprovida.

Sou Eu. E Tu.
E nós.
Escrito por StarDust em 04:45:30 | Link permanente | Comments (0) |

2008/09/13

Irresponsabilidade


Só tinha uma opção para sobreviver naquele momento.
O sentido de Humor, servindo-me de uma maneira esgoísta demais.
Abusando da situação até ao extremo porque de certa forma,
é apenasisso com que posso contar.
Senão os cortes nas costas, daquelas pessoas de facas afiadas.
Baton escarlate e línguas de fogo.
Eu só tinha o sentido de humor,
que me dizia que toda esta situação era tão caricata como uma outra qualquer,
que visto de cima, só me podia rir.

Sentindo a minha mão fria a aquecer,
sobre a água em lume brando no bico mais pequeno do fogão.
Esperei que fervesse e levasse a minha ira,
desgastada e desolada na mercê do vapor.
Além do mais, como podia eu desejar que fosse mais como eu,
como a única maneira de não me desiludir?
De transparente a água ficou preta.
E o chá com sabor incerto, deparou-se de súbito na minha boca,
na boca do subúrbio, na janela entreaberta da minha cozinha.

Eu não te posso dizer que me arrependo, nem que tiveste ou tive culpa. Não posso mentir ás pessoas e dizer que nunca aconteceu. Não posso sequer ter vergonha. Há uma parte de mim que fica cheia de raiva. Mas está desgastada, agora isso pouco me importa. Fico lívido e sereno porque o tempo quanto mais se distancia, menos importante se torna.
Escrito por StarDust em 02:53:03 | Link permanente | Comments (0) |

2008/09/11

Fim do Dia

Começa sempre assim, num súbito silvo do coração,
que sopra e empurra as pernas para chegar até lá.

Então eu corro.
Com força e até esgotar todo o meu fôlego.
Corro até meio do caminho, mas corro.
Corro cheio de força.
Porque o coração me diz que estás cada vez mais perto.
Depois, apenas ando.
Garganta seca, pernas disformes.
Pés cansados.

Acabo por parar e sento-me.
Olho para cima.
Dentro de mim tento procurar o sopro, a força.
Estou cansado.
E acabo assim, simplesmente a escrever.
Cansado demais.
Cansado, simplesmente.

Estou cansado dos começos. Cansado de repetir informações sobre mim. Estou cansado de ser simpático. Estou cansado do primeiro encontro, de sorrir e de ser tolerante. Estou cansado de ter de cativar alguém do início. Cansado de ser encantado, cativado, mimado, subestimado. Estou cansado de conhecer. Estou cansado. Cansado, simplesmente.
Escrito por StarDust em 02:19:19 | Link permanente | Comments (1) |

2008/09/07

Tentativa N.º 100


Quando eu não te dei a mão, tu julgaste, embora ao de leve,
que nessa noite eu me ia embora sem te dizer adeus.
E eu acabei mesmo por ir, porque sabes o coração partido,
não serve para ti nem para ninguém.
E enquanto for assim todos os dias, apenas a imaginar
se vens ou se vais dizer que Não.
Nós não podemos ter histórias de ouro.
Nem de prata.
Nem de nada.

É que tu não estavas lá.
Estavas longe, distante numa outra sala.
E enquanto eu chorar por isso, não vamos ali,
nem aqui, nem a lado nenhum.
Tu nunca estiveste lá.
E eu nem disse Adeus.

Escrito por StarDust em 20:22:05 | Link permanente | Comments (2) |

Matérias


Na desconfiguração da tua memória cheia de ambiguidades,
nós, nunca fomos, nós.
Fomos todas aquelas matérias ditadas de raiva e de vontades,
procurando um sentimento inequívoco e inócuo.

Porque quando um de nós morre, o outro nasce.
E quanto mais um sobrevive o outro se debate.
E por isso eu tenho de te dizer, que enquanto choro,
e me lembro de ti,
lembro-me só de ti,
porque nós,
nunca fomos,
nós.

Queria só perceber o que dentro da complacência de mim,
enquanto ser sentimental, me deixa tão devastado.

Se conseguisses perceber que...
Enquanto um de nós morre o outro nasce,
enquanto ris eu choro.
E todos aqueles grandes romances, começam a passar ao lado.
E eu.
Estou preparado para o Amor.
Não me podias dá-lo?
Prendado de tudo o que és?
Não podias?

Não.

Porque enquanto um de nós adormece, o outro acorda.
E enquanto eu choro tu ris.
Enquanto eu me quebro tu ficas forte.
Enquanto eu sobrevivo tu desfaleces.
Enquanto eu sou Eu, tu és Tu.
Sem espaço para nós.

Escrito por StarDust em 03:42:01 | Link permanente | Comments (1) |

2008/09/01

Processo Interno


Inspiro.
Do que serve o crime sem o castigo?
Expiro.

Enquanto me culpava incessantemente
acompanhado por uma beata mal apagada no cinzeiro junto ao sofá,
apenas garantia a mim próprio,
que a minha consciência era suficiente, para me julgar e castigar.
Que mentira!
Como posso eu mesmo ser um criminoso e juíz em simultâneo?
Faz pouco senstido quando analiso a questão,
acabo por perceber que isto apenas resulta,
para não me obrigar um castigo que mereço.
Como posso eu estar a mentir a mim mesmo,
ignorando os fenómenos de Causa-Efeito,
perdidos em todos os actos incorruptos
e profanos, de um tamanho exemplar humano pecador?
Vendo de fora, quantas vezes iria apontar o dedo a esse Não-Eu
que vestisse as minhas atitudes nos últimos tempos?

Inspiro
Perco a razão porque não me posso submeter a um julgamento interno.
Acabo por ser corrupto, por jogar a favor do réu.
Expiro.

E precisava de um castigo.
Eu precisava do castigo.
Eu quero o castigo e Eu
mereço esse castigo.
Escrito por StarDust em 02:41:14 | Link permanente | Comments (0) |