Livro não requisitado - As palavras dormentes

2009 November 18
by Diogo Ferrinho

Não é uma prisão,
mas dentro da minha cabeça eu tenho a certeza que não há saída.
E somente porque  esse mero acaso de ser eu fidedigno  aos meus actos,
sou impulsionado pelos remotos comandos da minha consciência
a serem e desaparecem, em clusters insolúveis do meu ser.
Não me quero isolar aqui,
mas não existem portas para entrar mais ninguém.
Tanto quanto me lembro, a culpa só podia ser das minhas projecções
idealistas, patéticas e quebráveis.
Estou tão cansado de me explorar,
de ser o livro fechado cheio de capas e contracapas mais bonitas,
para nunca alguém me ler realmente por dentro.

Não é uma plenitude,
mas parece que não se consome, acaba e se apaga.

Padrão espontâneo - Enfoques primários

2009 November 7
by Diogo Ferrinho

Não me chames, se não souberes.
Porque é preciso mais para sem palavras nenhumas entendermos
os uníssonos que se criam espontâneamente.
Quando no silêncio dois corações batem em sintonia.
Perceptível, são só os deslumbres de sorrisos afáveis
que tentam esconder a impotência de penetrar mais fundo
de cavar e enterrar por entre o ser,
para descobrir por fim,
os vales despidos que são essa parte da essência.

Não me chames, se não souberes.
Já me cansei das simples metáforas, dos ramos de flores,
das mais doces palavras.
Já me  cansei até das prendas mais dispendiosas,
das contas que nunca pago, dos elogios de ouro.
Que me abram a porta, que peguem na mão.
Que finjam silêncios enquanto apreciam a minha pele.
Já me cansei dos beijos. Das mensagens no telemóvel.

Por isso não me chames, se não souberes.
Não vale a pena.
Se o padrão espontâneo não nos encontrou,
não te canses. Não te magoes.
Não me chames mais,
se não souberes aquilo de que o meu coração é feito.
Se não souberes a minha essência.

Lá do fundo, o D. dizia-me que eu não sentia nada. Enquanto o Z. conduzia o carro cada vez mais rapidamente, apercebi-me tão abruptamente, que até a velocidade me fazia sentir mais qualquer coisa do que meras palavras a boiar na cabeça. Já em casa, despi-me das minhas matérias menos essenciais. Deixei-me na cama a procurar, para chegar até aqui. Que estava cansado disso mesmo. Precisava do entendimento mútuo. Tudo isto é sobre o entendimento múto. No enfoque primário do Eu + Tu.

Coração estéril

2009 October 29
by Diogo Ferrinho

Para amares os impossíveis, porque desses não esperas nada,
nem sequer permitem entropias nos teus estados emocionais,
já que de longe consegues controlar todo o sentir impróprio
dos olhos que nunca se cruzam nem dos esforços
e outros trabalhos, que tamanhas relações implicam.
São só esses que podem valer a pena,
porque não havendo princípios não podem haver fins
desfeitos e lavados por lágrimas e temperados de todo esse rol dos sentimentos humanos.

Para amares os que não amam de volta, em silêncio, no comboio
quando todas as caras escondem por detrás um coração
que tu sentes sem dúvida, serias capaz de conquistar.
E por isso eles todos são as hipóteses,
e lá porque a vida te parece abrir num leque de possibilidades,
não te podes esquecer que essas realidades só coabitam com os teus sonhos.
Porque não havendo princípios também não podem haver desenvolvimentos
protegidos pela felicidade e todos os outros sentimentos humanos de pertença
que fazem a pele arrepiar e sentir tão bem.

Para amares os impossíveis, esses que não te amam de volta,
por medo de falhar, na tua conquista inexistente, suprida pelos sonhos
e simples loucuras em pedacinhos de fantasias.
Não sobra nada depois de saires do comboio,
chegares a casa,
entrares no quarto entrares na banheira,
ligares a televisão lavares a louça.
Não sobra nada no cigarro à varanda
na cama despida na noite repleta de estrelas.
Sobras só tu.
E um bocadinho dos impossíveis desprezados no chão do quarto.

Anabiose das Coisas

2009 October 22
by Diogo Ferrinho

Não podia continuar somemente a atribuir culpas,
porque mesmo sem qualquer sentido, as culpas acabam
e não são as causas naturais que são culpadas,
se elas somemente ditam o natural incidente eminente.
Lá porque a porta continua por arranjar, meros contratempos
à nossa prática preguiçosa de arranjar mecanismos fixadores
porque isso implicava ir mais fundo para perceber o real problema.
Mas além disso, nem tão pouco por me pouco importar,
com os contextos em que ‘não sonho com ninguém’,
me tornam um egoísta ou simples inapto a partilhar esse pequeno tempo.
Só por isso eu consigo perceber,
que há meses atrás eu pensava que estava desfeito,
quando desfeitos são só adjectivos de coisas que realmente se podem desfazer,
como portas mal arranjadas e outros objectos,
que com uma qualquer mecânica simples podem simplesmente quebrar.
Não penso por isso que isso me possa acontecer realmente,
primeiro porque a minha mecânica nem sequer é linear,
muito menos utiliza fenómenos Causa-Efeito.
Só por isso que me entretanho com as culpas,
doces e macabras culpas para não me dar ao trabalho de tentar mais uma vez,
se começar do início mais uma vez,
de me dispôr mais uma vez.
Empurro a porta, com um barulho estridente ecoa pelo prédio todo,
Já todos nós sabemos que há coisas que precisam de arranjo,
mas nem hoje nem amanhã alguém se vai preocupar com isso.
Porque isso faz mesmo parte do processo do arranjo,
negligência, depois descuramento até se tornar num ponto irritante
da vida de alguém para depois de morto e vivo mil vezes,
ou outras vezes demais,
conseguir rematar com um encaixe perfeito.
Pelo menos metaforicamente dizendo…

Inapto permanente - O Melhor qualificado!

2009 October 1
by Diogo Ferrinho

Não seria esse ideal, um mero protótipo já tão distante,
das realidades conformes e circunscritras ao bem-parecer dessas criaturas,
que somos nós à procura da ideia original?

Já não me conforme só com a ideia da esperança,
porque no processo, que até consistia em eu ser mais activo na procura,
me tinha de predispor a aceitar que eu estava numa procura.
Mas que procura era essa então, que mal me parece
tão etiquetada de quaisqueres futilidades e argumentos
que não tecem o real sentido interior.
Tinha então de perceber, o que procurava realmente.

Isto tudo para me aperceber que simplesmente,
não estava minimamente preparado para receber, esse tamenho sentimento,
na magnitude das coisas mais importantes na vida das pessoas.
Eu sei que não estou preparado,
mas continuo em alerta iminente à espera de um sinal.
Porque quando chegares, eu sei
que vou continuar a não estar preparado, nem tu.
Mas será que estaremos algum dia preparados para amar?
Tudo para eu acordar no comboio e saber que todos os dias, são os dias certos.

Absolutistas

2009 September 28
by Diogo Ferrinho

Certezas todas encorpadas em retalhos mansos de dúvidas
à deriva das mãos, que arranjam os pormenores de conseguires.
Sem sombra de dúvidas, inequívocos são os gritos abafados
pelas ondas no mar de achados.
Eu consigo, quando consigo, tu dizes,
tu consegues quando queres. Para ver mais além.
Eu consigo, quando consigo.
Quando quero.

Oceanos

2009 July 28
by Diogo Ferrinho

Adeus, depois das mãos atadas sob pena de não compreender
que nós, são só emaranhados de cordas esquecidas
e sem respostas aos ‘porquês e aquis’ que não dissolvem
essa sensação de impotência.

‘Não leves isto pessoalmente!’ quando ele achava que,
impessoal eram só desculpas esfarrapadas que nos deixam á deriva nas ondas.
Tudo só para eu virar as costas e ter de nadar de volta até ao meu cais.
Quando me apercebi do cansaço nos braços,
no peito,
nas pernas,
percebi que era altura de ficar aqui no cais seguro,
para compreender o que realmente fazia com que o oceano
às vezes tivesse ondas tão destruidoras.

Revolução de Seda

2009 July 15
by Diogo Ferrinho

Parte II

No ‘dia das coisas essenciais’, eu entendi que
por qualquer motivo essencial, devia parar para ser alguém
que dentro da minha complacência pudesse ajustar-se, simplesmente
a todos os calcanhares de Aquiles e contradições
que habitam a minha mente, quando às vezes digo que sim
para me apereceber de nãos redondos a boiar na banheira.
Então,
na existência das minhas mãos, o sentido metafórico
de eu poder ser esse alguém,
imbutido de todas as virtudes que tecem alguém ideal eu sonhei que nada disto podia estar certo.
Porque se os sonhos estavam certos,
tinha de ter a vida todo ao contrário.
E já não posso conter todos os dias do calendário
para esperarem que eu apareça mutado aos tablóides dessa minha nova existência.

Como sequer podia eu achar, que do dia para a noite
podia concluir toda a minha metamorfose,
mesmo nas mais sublimes metáforas de Kafka sem saber que sentido igualar
para a partir de um início propagar-me sem terminar.
Lá porque a mente alberga sonhos de dimensões astronómicas,
não quer dizer que universos passam a caber nas mãos das pessoas que,
por momentos acabam por se encontrar e frente-a-frente
perceberem realmente qual a importância dessa busca.

Já no ‘dia das coisas essenciais’,
apercebi-me da dimensão da minha criação.
Como podia eu, por meros momentos acreditar que sem sentido
as palavras não procuram as saídas mais claras mesmo quando camufladas?
Para acreditar nesse ‘dia’
eu precisava de saber que não são só os braços que servem para abraçar.
Não é só o coração que serve para amar.

Não são só os olhos que servem para ver!

Desfiz a barba.
Iniciei a minha metamorfose extemporânea, na desambiguação
das essências que destilam, tumultuosas
nos humores internos.
São só noites grandiosas a serem as noites mais certas,
no encontro do que é realmente importante.
Quando eu consigo ser esse alguém.

Carbono nas Origens

2009 July 14
by Diogo Ferrinho

Moldes não tecem a realidade disforme
que assume à partida uma qualquer entidade física,
para parecer
tão solenemente alguém etiquetado de todos os jeitos e modestias.

É tudo mesmo muito mais complexo,
‘de difícil penetração’. As entidades externas
já não são claras o suficiente para gestos protectores
significarem segurança.
E a proximidade emocional nem sequer é confiança.

Já no lado oposto, consigo entender
que espelhos no escuro não reflectem essas imagens de mim
em fotocópias do meu género, ao teu parecer.
Se apagar-te as luzes podias compreender que,
este barulho não são interferências.

É o bater do meu coração.

Não há nada que eu te possa dar,
nem sequer eu mesmo, senão estes doces sobre nós.
Porque lembra-te, no escuro não vês
os moldes, as entidades físicas.

Sou só um coração agora.
Para acabar no chão no quarto, sem contracção.

Espelhos no escuro

2009 July 4
by Diogo Ferrinho
                                                     20 de Janeiro de 2001

A Pandora ainda não voltou. São agora 2h47 e a Pandora ainda não voltou.
Eu tinha-lhe dito que não conseguia acreditar que apesar de tudo,
ela tinha sido capaz da atrocidade de não conseguir aceitar. Quer dizer,
para querer compreender ela tinha primeiro de aceitar
que nós não somos iguais. E por isso o ‘não ser tão como tu Pandora’ tinha de ser erradicado
para compreenderes que outras pessoas
têm outras perspectivas.
Mas agora estou arrependido.
Queria pedir-lhe desculpa.
Mas e se ela não vai voltar?
Queria ter-lhe dito que estava tudo bem, ia superar isso.
O cancro. A tristeza.
Mas a Pandora ainda não voltou.
E bolas!! Eu sei que há tanta gente que seria feliz com tudo o que temos
mas não consigo tirar esta ideia hipócrita e egoísta de que nada é suficiente.
Se ao menos ele fosse saudável.
Ela tinha ficado…
Tenho frio aqui na varanda. Chove um oceano.
Pandora volta…